A história de Mágico Endurance
Por: André Vidiz


Foto: Cidinha Franzão

1. É a cara do papai
A história do Mágico começa bem antes de seu nascimento. Quando um cavalo nos surpreende sempre nos perguntamos “de onde veio isso?”. No caso dele, sei que tudo aquilo de extraordinário que ele faz está ligado às suas origens. Seu pai, Saad ibn Syed, tem ótimo coração e um temperamento exemplar; sua mãe, GR Mata-Hari, tinha vontade de andar, agilidade e, também, uma recuperação impressionante. É daí que vem toda a qualidade dele.

2. Rejeição na infância
Antes de ser domado, colocamos uma dupla em pista (o comprador escolheria com qual dos dois cavalos ficar): Mágico e seu irmão inteiro, Mistério Endurance. O preço, pelo que me lembro, não chegou a 20% do que esperávamos e, assim, aconteceu a única defesa por nossa parte em qualquer leilão que já vendemos cavalos.

3. Rejeição na adolescência
Numa das primeiras vezes nas quais os árabes vieram ao Brasil comprar cavalos, recebemos alguns compradores em casa e, além de Mágico e Mistério, mostramos o Malak Endurance (também irmão inteiro dele). Foram escolhidos 6 cavalos, incluindo os dois irmãos do Mágico, mas não ele.

4. A primeira vez
Alguns anos mais tarde, em 2007, fiz a primeira prova de 120kms dele. Foi logo depois do Pan de Campinas, o Campeonato Brasileiro, e o objetivo era apenas se classificar. Me lembro que no último anel ele ainda puxava a rédea e procurava os cavalos a frente. Nada tão incomum para cavalos novos fazendo sua primeira prova de longa, mas isto me marcou, ainda mais depois de chegar em 4º lugar e ganhar o Best.


5. O escolhido
Quando começamos a planejar a ida para Compiègne, tínhamos 5 cavalos treinando para isso. Miroslav e Hamlet foram vendidos para os árabes, a Valerie foi escolhida como reserva pois estava menos pronta e, então, ficamos com Mágico e Espiã. Eu, que só tinha montado o Mágico, o preferia, enquanto o Gerson e o Zé preferiam a irmã. Infelizmente, depois da prova de Paraopeba (sua 1ª de 120kms) ela sentiu o último anel a mais de 23kms/h e assim Mágico foi o escolhido para Compiègne.

6. Compiègne 08
Durante a prova de cavalos de 7 anos, Mágico nos surpreendeu: baixava sempre em 1 minuto e tinha vontade de andar a cada anel. Ao fim do 3º chegou puxando a rédea e foi o primeiro a entrar no vet-check. Seríamos os primeiros a largar para o anel final, mas fomos eliminados por manqueira. Aparentemente um corte no bulbo da mão esquerda era a causa, mas isso não importava muito.

7. Intercâmbio
Depois de Compiègne, Mágico foi para a casa de Xavier Perringerard, pai e treinador de Maya Perringerard, campeã do mundo em 2000. A idéia sempre foi treiná-lo para no ano seguinte correr a prova de 8 anos. Para isso, fizemos uma prova de 60kms, outra de 90kms, uma de 130kms (a Mônica o montou em Corlay) e então o preparamos para a prova em Agosto.

8. On vas plu
No final de Julho, ligo para o Xavier para acompanhar o treinamento do Mágico e sou surpreendido pela notícia de que ele mancava. O ferrador ainda iria revê-lo para certificar-se que não havia um cravo mal colocado, mas o tom do Xavier era de desistir de Compiègne. Depois de muita conversa, o convencemos de que se o cavalo parasse de mancar ainda valeria a pena levá-lo a Compiègne, mesmo ele acreditando que os 15 dias que o cavalo ficou parado fossem determinantes para seu treinamento. No fim, depois de trocar as ferraduras o Mágico voltou ao normal, mas de toda a história este foi o momento mais difícil.

9. À Compiègne
A semana antes da prova foi bem tranqüila. Montávamos, passeávamos o cavalo, arrumávamos as coisas para o apoio e para a prova, nada de anormal se passou. O Mágico estava calmo e em forma.

10. Largada e fim de prova
Na largada do ano anterior lembro que me surpreendi quando o Mágico corcoveou e deu coices para todos os lados (não mais do que durante uns 200m, é verdade). Neste ano, a largada foi mais tranqüila, mas depois destes mesmos 200m, ele recomeçou com a “brincadeira”, e então fez algo que já tinha feito com a minha irmã em Corlay, mas que eu não esperava: durante uma curva para a direita, do nada, abaixou a cabeça o máximo que pode e levantou com tudo a garupa direita. Eu, que não estava esperando, caí na hora pra esquerda. Quando o vi correndo entre os outros cavalos, pensei “Acabou a prova para mim”. De repente, todos os outros cavaleiros pararam e colocaram ao passo até que eu chegasse ao cavalo e remontasse: uma atitude verdadeiramente esportiva.

11. Começo
Depois da queda, continuei fazendo a prova normalmente. Na verdade, não gostei dos meus dois primeiros anéis, porque ao tentar encontrar um local confortável para o cavalo nos grupos que vão se formando, terminei correndo mais do que imaginava e não consegui deixá-lo tranqüilo.

12. Meio
No 3º anel, com o cavalo mais calmo, decidi deixar o grupo partir e fazer a minha prova. Larguei em 7º, mas logo 2 cavalos me passaram. Pensando em ganhar uma medalha, minha conta era simples: dos 8 a minha frente 3 cairiam fora e eu precisaria passar outros 3. Para isso poderia deixar que a ponta abrisse de 3 a 4 minutos. O que eu não pensei, no entanto, é que havia um grupo atrás e que me alcançaria no final do anel. Assim, eu não competia mais com 8, mas sim com 14. No 4º anel fui junto com o grupo que havia me alcançado e terminamos chegando no grupo da ponta. Neste vet o Polar parou de funcionar e terminamos perdendo algum tempo para entrar: lá dentro o cavalo bateu 52. Mesmo assim ainda largamos em 3º, 53 segundos atrás do 1º colocado.

13. Fim
O último anel contava com 27kms, algo muito raro numa prova de 160kms e conseqüência da prova contar com apenas 5 anéis. Era algo novo para mim e que causava certa indecisão sobre o que fazer. Como o cavalo ainda puxava e queria ir, coloquei num bom galope e logo alcancei o 2º colocado. Outros dois cavalos nos alcançaram e seguimos na caça ao primeiro, galopando a 25kms/h. Eu não entendia como isso era possível depois de 140kms, mas continuava com o grupo. Ao avistarmos o 1º colocado todos aceleraram e eu achei que acompanhar o grupo seria arriscado demais, apesar do Mágico se apresentar bem. Deixei que eles fossem, mas continuei no ritmo em que já vinha, o que me permitia continuar vendo os 4 cavalos a minha frente. Logo um deles se cansou e foi obrigado a colocar ao passo, o que me garantia até ali a 4ª posição. Faltando 10kms eu ainda os via e percebi que o espanhol que havia largado em primeiro já estava cansado, ficando para trás as vezes mas recuperando-se depois; a 5kms da chegada havia um pit e passei em 4º, o que causava um pouco de incômodo já que era quase um lugar no pódium. Um kilometro depois, no entanto, ao fazer uma curva avistei o espanhol a pé puxando seu cavalo. Daí para frente foi só administrar e chegar ao hipódromo em 3º lugar.


 


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