
Foto: Cidinha Franzão |
1.
É a cara do papai
A história do Mágico começa bem antes
de seu nascimento. Quando um cavalo nos surpreende sempre
nos perguntamos “de onde veio isso?”. No caso
dele, sei que tudo aquilo de extraordinário que
ele faz está ligado às suas origens. Seu
pai, Saad ibn Syed, tem ótimo coração
e um temperamento exemplar; sua mãe, GR Mata-Hari,
tinha vontade de andar, agilidade e, também, uma
recuperação impressionante. É daí
que vem toda a qualidade dele.
2. Rejeição na infância
Antes de ser domado, colocamos uma dupla em pista (o comprador
escolheria com qual dos dois cavalos ficar): Mágico
e seu irmão inteiro, Mistério Endurance.
O preço, pelo que me lembro, não chegou
a 20% do que esperávamos e, assim, aconteceu a
única defesa por nossa parte em qualquer leilão
que já vendemos cavalos.
3.
Rejeição na adolescência
Numa das primeiras vezes nas quais os árabes vieram
ao Brasil comprar cavalos, recebemos alguns compradores
em casa e, além de Mágico e Mistério,
mostramos o Malak Endurance (também irmão
inteiro dele). Foram escolhidos 6 cavalos, incluindo os
dois irmãos do Mágico, mas não ele.
4.
A primeira vez
Alguns anos mais tarde, em 2007, fiz a primeira prova
de 120kms dele. Foi logo depois do Pan de Campinas, o
Campeonato Brasileiro, e o objetivo era apenas se classificar.
Me lembro que no último anel ele ainda puxava a
rédea e procurava os cavalos a frente. Nada tão
incomum para cavalos novos fazendo sua primeira prova
de longa, mas isto me marcou, ainda mais depois de chegar
em 4º lugar e ganhar o Best.
5. O escolhido
Quando começamos a planejar a ida para Compiègne,
tínhamos 5 cavalos treinando para isso. Miroslav
e Hamlet foram vendidos para os árabes, a Valerie
foi escolhida como reserva pois estava menos pronta e,
então, ficamos com Mágico e Espiã.
Eu, que só tinha montado o Mágico, o preferia,
enquanto o Gerson e o Zé preferiam a irmã.
Infelizmente, depois da prova de Paraopeba (sua 1ª
de 120kms) ela sentiu o último anel a mais de 23kms/h
e assim Mágico foi o escolhido para Compiègne.
6.
Compiègne 08
Durante a prova de cavalos de 7 anos, Mágico nos
surpreendeu: baixava sempre em 1 minuto e tinha vontade
de andar a cada anel. Ao fim do 3º chegou puxando
a rédea e foi o primeiro a entrar no vet-check.
Seríamos os primeiros a largar para o anel final,
mas fomos eliminados por manqueira. Aparentemente um corte
no bulbo da mão esquerda era a causa, mas isso
não importava muito.
7.
Intercâmbio
Depois de Compiègne, Mágico foi para a casa
de Xavier Perringerard, pai e treinador de Maya Perringerard,
campeã do mundo em 2000. A idéia sempre
foi treiná-lo para no ano seguinte correr a prova
de 8 anos. Para isso, fizemos uma prova de 60kms, outra
de 90kms, uma de 130kms (a Mônica o montou em Corlay)
e então o preparamos para a prova em Agosto.
8.
On vas plu
No final de Julho, ligo para o Xavier para acompanhar
o treinamento do Mágico e sou surpreendido pela
notícia de que ele mancava. O ferrador ainda iria
revê-lo para certificar-se que não havia
um cravo mal colocado, mas o tom do Xavier era de desistir
de Compiègne. Depois de muita conversa, o convencemos
de que se o cavalo parasse de mancar ainda valeria a pena
levá-lo a Compiègne, mesmo ele acreditando
que os 15 dias que o cavalo ficou parado fossem determinantes
para seu treinamento. No fim, depois de trocar as ferraduras
o Mágico voltou ao normal, mas de toda a história
este foi o momento mais difícil.
9.
À Compiègne
A semana antes da prova foi bem tranqüila. Montávamos,
passeávamos o cavalo, arrumávamos as coisas
para o apoio e para a prova, nada de anormal se passou.
O Mágico estava calmo e em forma.
10. Largada e fim de prova
Na largada do ano anterior lembro que me surpreendi quando
o Mágico corcoveou e deu coices para todos os lados
(não mais do que durante uns 200m, é verdade).
Neste ano, a largada foi mais tranqüila, mas depois
destes mesmos 200m, ele recomeçou com a “brincadeira”,
e então fez algo que já tinha feito com
a minha irmã em Corlay, mas que eu não esperava:
durante uma curva para a direita, do nada, abaixou a cabeça
o máximo que pode e levantou com tudo a garupa
direita. Eu, que não estava esperando, caí
na hora pra esquerda. Quando o vi correndo entre os outros
cavalos, pensei “Acabou a prova para mim”.
De repente, todos os outros cavaleiros pararam e colocaram
ao passo até que eu chegasse ao cavalo e remontasse:
uma atitude verdadeiramente esportiva.
11. Começo
Depois da queda, continuei fazendo a prova normalmente.
Na verdade, não gostei dos meus dois primeiros
anéis, porque ao tentar encontrar um local confortável
para o cavalo nos grupos que vão se formando, terminei
correndo mais do que imaginava e não consegui deixá-lo
tranqüilo.
12. Meio
No 3º anel, com o cavalo mais calmo, decidi deixar
o grupo partir e fazer a minha prova. Larguei em 7º,
mas logo 2 cavalos me passaram. Pensando em ganhar uma
medalha, minha conta era simples: dos 8 a minha frente
3 cairiam fora e eu precisaria passar outros 3. Para isso
poderia deixar que a ponta abrisse de 3 a 4 minutos. O
que eu não pensei, no entanto, é que havia
um grupo atrás e que me alcançaria no final
do anel. Assim, eu não competia mais com 8, mas
sim com 14. No 4º anel fui junto com o grupo que
havia me alcançado e terminamos chegando no grupo
da ponta. Neste vet o Polar parou de funcionar e terminamos
perdendo algum tempo para entrar: lá dentro o cavalo
bateu 52. Mesmo assim ainda largamos em 3º, 53 segundos
atrás do 1º colocado.
13. Fim
O último anel contava com 27kms, algo muito raro
numa prova de 160kms e conseqüência da prova
contar com apenas 5 anéis. Era algo novo para mim
e que causava certa indecisão sobre o que fazer.
Como o cavalo ainda puxava e queria ir, coloquei num bom
galope e logo alcancei o 2º colocado. Outros dois
cavalos nos alcançaram e seguimos na caça
ao primeiro, galopando a 25kms/h. Eu não entendia
como isso era possível depois de 140kms, mas continuava
com o grupo. Ao avistarmos o 1º colocado todos aceleraram
e eu achei que acompanhar o grupo seria arriscado demais,
apesar do Mágico se apresentar bem. Deixei que
eles fossem, mas continuei no ritmo em que já vinha,
o que me permitia continuar vendo os 4 cavalos a minha
frente. Logo um deles se cansou e foi obrigado a colocar
ao passo, o que me garantia até ali a 4ª posição.
Faltando 10kms eu ainda os via e percebi que o espanhol
que havia largado em primeiro já estava cansado,
ficando para trás as vezes mas recuperando-se depois;
a 5kms da chegada havia um pit e passei em 4º, o
que causava um pouco de incômodo já que era
quase um lugar no pódium. Um kilometro depois,
no entanto, ao fazer uma curva avistei o espanhol a pé
puxando seu cavalo. Daí para frente foi só
administrar e chegar ao hipódromo em 3º lugar.
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